
A cada semana, as divisões de peso do ADCC Polônia tomam mais forma. Com os dias 12 e 13 de setembro separados para a edição de 2026, que acontece em Cracóvia, o ADCC tem sedentos atletas buscando seu lugar ao sol, e campeões de volta para defender o seu trono.
Esse é o caso da campeã acima de 65kg Rafaela Guedes, que vem para seu terceiro ADCC consecutivo em busca de mais uma vez figurar na finalíssima, agora para defender sua dominância na divisão.
Nomes complicados como Helena Crevar, Gabi Garcia, Yara Soares e outras feras já estão no páreo, e outras surpresas ainda podem aparecer até setembro. Para Rafaela, que com jogo ofensivo de sobra passou pelas melhores do sem kimono em duas edições seguidas, o caminho da vitória não lhe é estranho.
Mesmo com um doloroso revés em 2022, na final contra Amy Campo, Rafaela mostrou que sua garra e determinação são combustíveis suficientes para estar entre as favoritas. A campanha de 2024 que valeu o título deixou Rafaela mais embalada, contudo, o aprendizado de 2022 foi ainda mais valioso para a principal atleta da divisão.
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FloGrappling: Além de veterana do ADCC, nesta campanha de 2026 você chega como campeã a ser batida na divisão acima de 65kg. O que isso muda na sua cabeça e na forma de abordar o ADCC deste ano, ao ser a principal estrela da chave?
Rafaela Guedes: Vou com a minha confiança ainda maior. O ADCC de 2022 foi um golpe forte, mas em 2024 voltei mais confiante, porque sabia do meu potencial, sabia que conseguiria o título. Em 2026 estou ainda mais confiante no trabalho. Teremos a Helena Crevar nessa categoria e a Gabi Garcia de volta ao ADCC. Isso me dá uma motivação maior de estar ali entre as melhores, e a confiança de ter vencido o último me deixa ainda mais motivada.
Você pode falar mais sobre o ADCC de 2022? Qual foi o forte golpe daquela edição que escapou por entre os dedos?
No geral, 2022 foi um ano muito difícil para mim. No primeiro dia de camp do ADCC tive uma lesão e fiquei três semanas fora, sem poder fazer nada, só fisioterapia praticamente todos os dias. Isso me deixou sem confiança. Não estou falando que esse foi o motivo de ter ficado com a prata, foi uma luta muito parelha. Se estivesse 100% fisicamente e mentalmente, a Amy Campo não teria me parado. Nunca imaginei que ela pudesse me parar. Ela é dura, mas sei do meu potencial. Essa derrota me deixou com um nó na garganta, fiquei muito triste. Demorei quase seis meses para assistir essa luta, para ver onde tinha errado, o que poderia melhorar para o próximo. Pedi essa luta algumas vezes, para ter a revanche, mas não consegui. Para 2024 alinhei tudo, mentalmente e fisicamente. Trabalhei muito para que nada me tirasse do meu foco, para me manter sem lesões e deu tudo certo. Consegui chegar no ápice do meu desempenho e consegui o ouro.
Então podemos dizer que a final de 2022 foi a chave para voltar e vencer em 2024? Quais foram as lições tiradas daquela prata?
Com certeza as lições tiradas dessa prata foram muitas. Demorei bastante tempo para poder estar bem comigo mesma e avaliar a luta. Uma derrota não define a gente. Se Deus quis assim, foi para que eu melhorasse de alguma forma, de alguns aspectos. Em 2024 comecei a trabalhar nos primeiros dias do ano, porque realmente queria muito o título do ADCC, e consegui.
A maior lição que tive foi querer fazer as coisas diferentes e certas. Me tornei melhor como pessoa também depois dessa derrota. No final das contas, é o que vale a pena. O ano de 2024 foi especial. Realmente estava no meu melhor momento, com tudo absolutamente alinhado. Era o meu ano e não tinha como ninguém me parar.
Sua consagração veio em 2024, vencendo a Nia Blackman, Kendall Reusing e a Nathiely de Jesus. Qual foi a luta mais difícil da edição?
A minha luta mais difícil foi contra a Nia, com certeza. Me frustrei muito, quase perdi a razão porque ela estava muito oleosa. A pele dela, todas as partes do corpo dela estavam muito oleosas, então não conseguia encaixar nada, porque a menina estava escorregando muito. Comentei com o árbitro, tentei comunicar com meus coaches. Estava frustrada pelo fato de reclamar algumas vezes com o juiz e ele sequer checou. Foi a primeira luta, mas graças a Deus tinham pessoas muito boas ao meu redor. Estava muito frustrada ainda, porque essa não era a apresentação que queria ter feito.

No dia seguinte finalizei a Kendall nas semifinais. A gente já lutou muitas vezes. Em 2022, mesmo se não fosse a lesão que ela teve, também teria ganho pois estava abafando ela a luta toda. A Kendall é do wrestling e nunca conseguiu me derrubar. Só comecei a fazer wrestling quando peguei a faixa-preta. Na faixa-marrom não consegui ganhar nenhuma vez dela, mas a gente sabe que na faixa-preta é que começa o jogo e eu venci todas na preta.
A Nathiely é uma oponente muito dura também. Tinha lutado com ela talvez um ano antes, no Who's Number One. Não tive uma boa performance e pedi a revanche de novo, mas não deu. Graças a Deus a gente se encontrou na final do ADCC e estava com uma cabeça totalmente diferente da outra vez que lutei com ela. Sempre tenho esse pensamento: quando estou com tudo alinhado não vejo ninguém me vencendo. Tive a revanche com a Nathiely e aquela sensação de ter o braço levantado na final, de missão cumprida, foi o melhor sentimento que já tive na minha vida.
Você tem um estilo muito agressivo nas suas lutas, buscando sufocar suas adversárias com seu volume de jogo. Essa estratégia cabe muito bem no ADCC e seus resultados nos dois anos que lutou são prova disso. Você acha que o seu Jiu-Jitsu encaixa melhor no ADCC do que em outras regras?
Sempre tive esse estilo agressivo. Sempre quis mais. Sou manauara e os manauaras são muito diferenciados nisso. Quando luto é para matar ou morrer. Não importa se vai chute, tapa, clinch mais forte. O ADCC tem esse sabor especial, porque se você cai fora do tatame e o jogo continua. Se de repente dá um tapa na cara, sem querer, o jogo continua. Se dá um chute, sem querer, continua. Consigo me adaptar em qualquer regra, mas o ADCC é muito bom porque a galera sai na porrada ali e depois está tudo bem.
Logicamente, uma das desvantagens de ser a atual campeã é ter o seu jogo mapeado pelas possíveis adversárias. Há planos de mudar algo? Alguma coisa que tem feito diferente nos treinos para este camp?
Poderia ser uma desvantagem se não estivesse evoluindo também. Nos últimos dois anos evoluí bastante, tanto o meu jogo em pé quanto nas minhas passagens de guarda, pressão por cima, e minha guarda também. São coisas que sempre procurei melhorar, principalmente a minha guarda. Não fazia muita guarda lutando sem kimono, mas é algo que me comprometi a melhorar. No ADCC tudo pode acontecer. Elas podem assistir o meu jogo, mas posso estar totalmente diferente. Posso também jogar o mesmo jogo e elas não conseguirem matar, como não conseguiram em 2024. Para este ano tem muita coisa mudando.
Estou melhor do que estava há dois anos e espero que elas estejam também, pois quero dar o show que os espectadores desejam. Não é só porque é mulher, acima de 65 quilos, que o jogo tem que ser travado. Trabalho muito o meu cardio para não ficar cansada e não travar a luta. Vou estar melhor do que estava em 2024 e será uma grande campanha mais uma vez.
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